Gestão do conhecimento e inovação nas organizações: o compartilhamento de saberes como fonte de novas soluções

Nas organizações atuais, o conhecimento passou a ter um papel cada vez mais importante  na geração de valor e na capacidade de adaptação às mudanças. Diferente de outros  recursos organizacionais, ele não está apenas registrado em documentos ou sistemas, mas  principalmente nas pessoas, em suas experiências, interpretações e aprendizados  construídos ao longo do trabalho. Nesse contexto, a gestão do conhecimento surge como  uma forma de organizar, compartilhar e aplicar esses saberes dentro das organizações.  Além disso, esse processo se relaciona diretamente com a inovação, já que muitas ideias novas surgem justamente da troca de experiências, da reflexão sobre práticas já existentes e da combinação de diferentes conhecimentos.

O conhecimento como intersecção entre informação, experiência e contexto

O conhecimento vai além da simples informação. Ele envolve experiência, interpretação e  a capacidade de utilizar aquilo que foi aprendido em situações reais. Davenport e Prusak  (1998) explicam que o conhecimento se forma a partir da combinação entre informação,  experiência e contexto. Ou seja, ele só ganha valor quando consegue orientar decisões e  ajudar na solução de problemas. Nesse sentido, seu valor está na possibilidade de gerar  melhorias, novas ideias e soluções para as organizações. Dessa forma, compreender como o conhecimento é criado e compartilhado torna-se essencial para que as organizações consigam aprender com suas próprias experiências.

No ambiente organizacional, o conhecimento pode ser entendido como o conjunto de  aprendizados que as pessoas constroem ao longo de suas trajetórias profissionais. Ele se  desenvolve a partir da prática cotidiana, dos estudos, da observação e das trocas que  acontecem entre colegas e equipes. Esse saber envolve tanto a compreensão de conceitos  e informações quanto a capacidade de aplicar esse aprendizado na prática. Em muitas  situações, esse conhecimento permanece no nível individual, ligado à experiência de cada  profissional. Porém, ele também pode se tornar organizacional quando passa a fazer parte de processos, métodos de trabalho, documentos e da própria memória institucional da organização.

Nesse cenário, a gestão do conhecimento pode ser compreendida como um conjunto de  práticas organizacionais destinadas a identificar, registrar, compartilhar e aplicar  conhecimentos relevantes, contribuindo para a melhoria dos processos, para a  aprendizagem organizacional e para o desempenho institucional. O Modelo de Referência  em Gestão do Conhecimento (MRGC) apresenta a gestão do conhecimento como um  processo que deve ser conduzido de maneira planejada e consciente dentro das  organizações. Isso implica adotar métodos que permitam identificar, registrar, compartilhar  e utilizar os conhecimentos considerados relevantes para as atividades institucionais, além  de definir responsabilidades e objetivos que orientem essas ações. O modelo também ressalta que essas práticas precisam estar conectadas à estratégia organizacional, de modo que conhecimentos essenciais ou críticos sejam reconhecidos, preservados e efetivamente utilizados no apoio aos processos de trabalho e à tomada de decisões (FUKUNAGA, 2024).

Historicamente a gestão do conhecimento ganhou maior destaque a partir das  transformações econômicas e organizacionais ocorridas na segunda metade do século XX.  Nesse período, o conhecimento passou a ser reconhecido como um recurso estratégico  para a competitividade e para a inovação. Já na década de 1990, um dos marcos mais

importantes da área foi o modelo de criação do conhecimento desenvolvido por Ikujiro  Nonaka e Hirotaka Takeuchi. Esses autores propuseram o modelo SECI, que explica como o conhecimento circula dentro das organizações.

Esse modelo apresenta quatro processos principais: socialização, externalização,  combinação e internalização. A socialização envolve o compartilhamento de conhecimento  tácito entre as pessoas. A externalização ocorre quando esse conhecimento é transformado  em algo mais estruturado, como documentos ou explicações formais. A combinação refere-se à organização e integração de diferentes conhecimentos explícitos. Por fim, a  internalização acontece quando esse conhecimento é incorporado pelas pessoas por meio  da prática e da aprendizagem. Esse movimento contínuo forma a chamada espiral do conhecimento, indicando que o aprendizado organizacional se expande a partir da interação entre indivíduos e experiências.

Nesse mesmo período também ganhou força a discussão sobre capital intelectual. De  maneira geral, ele envolve três dimensões principais: capital humano, capital estrutural e  capital relacional. Esses elementos passaram a ser considerados fontes importantes de vantagem competitiva para as organizações, já que estão diretamente ligados à capacidade de aprender, inovar e se adaptar.

A partir dos anos 2000, a gestão do conhecimento passou a se integrar de forma mais  consistente às estratégias organizacionais, às tecnologias da informação e aos processos  de inovação. Nesse contexto, o conhecimento passou a ser compreendido como um recurso estratégico capaz de gerar vantagem competitiva e apoiar a tomada de decisões nas organizações.

Autores da área destacam que a gestão do conhecimento envolve processos sistemáticos  de identificação, criação, compartilhamento e aplicação do conhecimento organizacional.  Esses processos contribuem para a aprendizagem organizacional, para o desenvolvimento da inovação e para a melhoria do desempenho institucional (NONAKA; TAKEUCHI, 1997; DAVENPORT; PRUSAK, 1998; DALKIR, 2011).

Apesar de seus benefícios, a gestão do conhecimento também enfrenta alguns desafios.  Um deles é a concentração de conhecimento em poucas pessoas, o que pode gerar  dependência e risco de perda quando esses profissionais deixam a organização. Outro  desafio é transformar experiências individuais em aprendizado coletivo. Muitas vezes, erros  e acertos vivenciados no trabalho não são registrados ou compartilhados, o que impede  que a organização aprenda com essas experiências. Isso demonstra que gerir  conhecimento não depende apenas de tecnologia ou sistemas, mas principalmente de uma  cultura organizacional voltada para a colaboração e para o aprendizado. Além disso, a ausência de espaços de diálogo e colaboração entre profissionais pode dificultar a circulação do conhecimento e limitar o surgimento de novas ideias.

 

Tabela 1 – Principais desafios da gestão do conhecimento

DESAFIO / ARMADILHA DESCRIÇÃO IMPACTO PARA A ORGANIZAÇÃO
Concentração de conhecimento em poucas pessoas Determinados conhecimentos ficam restritos a alguns profissionais específicos, sem serem compartilhados com o restante da equipe Gera dependência desses profissionais e risco de perda de conhecimento caso eles deixem a organização
Dificuldade de transformar experiências individuais em aprendizado coletivo Experiências, erros e acertos vividos no trabalho muitas vezes não são registrados ou compartilhados com outras pessoas A organização deixa de aprender com essas experiências e pode repetir erros ou perder oportunidades de melhoria
Falta de espaços de troca e colaboração Ausência de ambientes ou práticas que incentivem o diálogo, a interação e o compartilhamento entre profissionais e áreas Dificulta a circulação do conhecimento e pode limitar o surgimento de novas ideias e soluções inovadoras

Fonte: Elaboração própria com base em Davenport e Prusak (1998), Nonaka e Takeuchi (1997) e Fukunaga (2024).

 

A partir do estudo desses autores, torna-se possível perceber que a gestão do  conhecimento não se resume à utilização de ferramentas ou tecnologias para armazenar  informações. Na prática, ela depende principalmente das pessoas e das interações que  ocorrem dentro das organizações. Quando existe um ambiente que estimula a troca de experiências e o aprendizado coletivo, o conhecimento circula com mais facilidade e pode contribuir de forma mais efetiva para a inovação.

Ao identificar conhecimentos essenciais, incentivar o compartilhamento e registrar lições aprendidas, torna-se possível reduzir a perda de conhecimento e fortalecer a capacidade  de resolver problemas e inovar. Nesse sentido, percebe-se que a gestão do conhecimento  não se limita a ferramentas ou sistemas de informação, mas envolve principalmente  pessoas, cultura organizacional e práticas de colaboração. Assim, investir em gestão do conhecimento significa também investir em aprendizagem contínua e na construção de organizações mais adaptáveis e inovadoras.

 

Sobre a autora: 

Viviane Gonçalves Santos Trombim atua há mais de 18 anos na área da informação, com foco em gestão do conhecimento e inovação, com experiência no ITA, IEAv, Odebrecht Engenharia e Construção, Mattos Filho Advogados e projetos para a Petrobras; é bacharel em Tecnologia da Informação e em Biblioteconomia, possui especialização em Gestão do Conhecimento, cursa MBA em Gestão Estratégica de Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual e está em certificação em Gestão do Conhecimento pela SBGC. Linkedin:

 

REFERÊNCIAS

DALKIR, Kimiz. Knowledge management in theory and practice. 2. ed. Cambridge: MIT Press, 2011.

DAVENPORT, Thomas H.; PRUSAK, Laurence. Conhecimento empresarial: como as organizações gerenciam o seu capital intelectual. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

FUKUNAGA, Fernando. Programa essencial de gestão do conhecimento: modelo de referência em gestão do conhecimento (MRGC). 2. ed. São Paulo: Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento, 2024.

NONAKA, Ikujiro; TAKEUCHI, Hirotaka. Criação de conhecimento na empresa: como as empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

Sobre o autor:

selo-Certificado
Alunos da Certificação Gestor do Conhecimento da SBGC

Os conteúdos assinados por alunos da Certificação Gestor do Conhecimento da SBGC fazem parte das atividades práticas da formação. Por meio dessas publicações, nossos participantes colocam em prática os conhecimentos adquiridos, contribuindo com reflexões, experiências e boas práticas para a comunidade. Esta iniciativa reforça o compromisso da SBGC com o desenvolvimento de profissionais que transformam organizações por meio da Gestão do Conhecimento.

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