Uma breve reflexão sobre o conhecimento “cristalizado” nas organizações, que impede o surgimento do novo e do transformador.
O título deste post se refere a um aspecto que acredito ser bastante comum no cotidiano da Gestão do Conhecimento (GC) nas organizações. Na maioria das vezes, o início da GC vem de uma iniciativa empírica, um impulso derivado do desconforto de alguém que percebe que um ativo intangível importante para a sustentabilidade do negócio está sendo relegado a segundo plano, seja pela falta de tempo, seja pela falta de recursos ou de interesse empresarial. Já com o passar do tempo, ao final de um longo ciclo, a GC acaba estagnada quando determinados procedimentos se tornam tão enraizados no cotidiano, ou até mesmo no ethos, que quase ninguém tem coragem de questionar sua validade ou aplicabilidade no atual momento da organização. Isso impede que surjam novos processos ou respostas aos desafios empresariais, já que o conhecimento existente se torna “o que sempre fizemos e deu certo”.
Conhecimento organizacional não deve ser apenas preservado. Tem de ser continuamente questionado, validado e ressignificado, porque aquilo que foi um dia conhecimento útil pode se tornar, a qualquer momento, uma enorme barreira à inovação.
Observo que, e note-se que é só minha opinião, na maior parte das vezes o problema da empresa não é exatamente o conhecimento já validado, mas o conhecimento “cristalizado”, aquele que fica guardado em manuais ou publicações por décadas, ou consagrado como procedimento habitual por gerações de empregados, sem questionamentos. O risco é que ele acabe sendo aceito como o único válido, sem a devida análise sistemática e periódica de sua aplicabilidade em contextos que, quase sempre, são muito diversos do tempo em que surgiram.
Acredito que a frase “é assim que sempre fizemos”, usada como validação, traz a oportunidade de fazermos duas perguntas. A primeira: qual o valor desse conhecimento consolidado para a empresa, no atual contexto do mercado? E a segunda, a meu ver a mais impactante: será que esse conhecimento ainda é válido hoje? Porque não dá para negar que o conhecimento acumulado é um ativo e patrimônio importante; mas, sem validação permanente, pode se tornar um passivo e até um obstáculo para a inovação.
É claro que nem todos os processos, produtos ou serviços são impactados da mesma forma pelo surgimento de novas tecnologias – alguns se tornam obsoletos antes de outros. Porém, parece que grande parte das empresas que não souberam ou não quiseram pôr à prova seus conhecimentos, métodos e processos consolidados acabaram por enfrentar o surgimento do novo, do aperfeiçoado ou mesmo das mudanças inevitáveis nas condições do mercado – impulsionadas pela atuação dos competidores, pelas expectativas dos consumidores ou pelo contexto regulatório e econômico.
Por isso, não basta pensar só na retenção do conhecimento como uma atividade central da Gestão do Conhecimento; esse recurso intangível, a meu ver, também pode se desvalorizar caso não seja permanentemente colocado à prova, reconstruído, aplicado na prática e, caso ainda válido, possa ser transferido ou compartilhado entre gerações. E, mais do que isso, deve servir como pergunta e como fagulha, alguma coisa capaz de despertar curiosidade e estimular a criação de novos conhecimentos. É dessa curiosidade, desse questionamento permanente, que nasce a inovação.
Portanto, a frase “aqui, a gente sempre fez assim” não deveria ser um argumento contra procurar outras soluções. Talvez devesse ser justamente o ponto de partida para que possamos nos perguntar: “por que sempre fizemos assim?” – e, mais do que isso, se devemos continuar fazendo, sempre, tudo da mesma maneira.
Sobre o autor:
Daniel Luis de Lara Reis é publicitário, lotado na Divisão de Imagem Institucional da Itaipu Binacional. Bacharel em Comunicação Social e licenciado em Educação Artística, tem especialização em Planejamento de Comunicação Integrada e MBA em Gestão de Negócios do Setor Elétrico. Participou da formação in company Gestão do Conhecimento: Conceitos e Práticas, da SBGC, em 2025; e, em 2026, está cursando o Programa de Certificação Profissional SBGC: Gestor do Conhecimento.
