Quando se fala na Itaipu Binacional, normalmente, o que vêm à cabeça é a barragem, o reservatório, os grandes equipamentos para geração de energia. A empresa é comumente associada à engenharia elétrica e à engenharia civil, necessárias para erguer e operar a usina.
Porém, entre aqueles que trabalharam para tornar essa empresa realidade, costuma-se dizer que a Itaipu, para além das engenharias civil e elétrica, é também resultado de muita engenharia financeira, engenharia diplomática e engenharia ambiental.
Embora essa variedade permita ter uma ideia da diversidade de saberes associados à empresa, isso pode resultar em um conceito errôneo de conhecimento, de que este se limita ao âmbito científico ou acadêmico. Porém, os conhecimentos associados ao negócio da Itaipu vão muito além dessas ciências.
Itaipu foi projetada para ser, à época, a maior hidrelétrica do mundo. Muitas das soluções adotadas para comportar e operar equipamentos em dimensões nunca vistas foram criadas in loco. Dentro da área técnica da empresa, são comuns os relatos de “professores Pardais” que encontraram soluções próprias e criativas para questões até então inéditas e que surgiram no dia a dia da construção e da operação da usina.
A isso se soma um fator cultural. Itaipu é binacional. Foi construída e é operada por trabalhadores brasileiros e paraguaios, cada qual com sua cultura, seu modo de ser e de ver o mundo. Dessa convivência diária resultou uma cultura própria da empresa, que se faz presente em todos os níveis hierárquicos.
Nesse contexto sui generis, o conhecimento acumulados ao longo de mais de 50 anos de história (mais de 40 deles gerando energia) é fundamental para assegurar a continuidade da operação hidrelétrica em condições de excelência, desde os aspectos técnicos ligados à produção de eletricidade às ações territoriais e de preservação do ecossistema, passando pelos processos administrativos, gestão financeira e demais aspectos da administração binacional da empresa.
Porém, a binacionalidade – que resulta nessas características únicas – também guarda suas armadilhas. A complexidade da gestão por dois governos implica em uma forte cultura burocrática. Nesse contexto, a gestão do conhecimento enfrenta alguma resistência, pois é comumente associada a “mais uma burocracia”, ou “um processo a mais”. Vencer essa resistência é um dos principais desafios.
A isso se somam outros desafios, próprios da época em que vivemos, em que a atenção das pessoas é uma mercadoria extremamente disputada, e o excesso de estímulos das telas e dos gadgets eletrônicos – e mais recentemente as facilidades geradas pelo avanço das ferramentas de Inteligência Artificial – vêm impactando as pessoas na forma como elas percebem o mundo e organizam seus conhecimentos. Termos como “sedentarismo cognitivo”, “medo de ficar de fora” (da sigla em inglês Fomo), ou mesmo “burnout” tem se tornado comuns nos debates sobre saúde mental e suas relações com as tecnologias da informação.
É na interseção desses dois contextos – o corporativo e o da sociedade em geral – que residem os principais desafios para a gestão do conhecimento na Itaipu.
Sobre o autor:
Romeu de Bruns é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com especializações em Gestão da Responsabilidade Socioambiental Corporativa e em Marketing e Mídias Digitais, ambas pela FGV. Atua na Comunicação Social da Itaipu desde 2010.
